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Editorial

Frei Rubens Sevilha. Pároco

 O Deus da Vida

 

A Páscoa nos recorda que a vida se impõe sobre a morte. Antes de existir qualquer tipo de vida, subsistia somente o Criador. Toda forma de vida foi criada por Deus. O Deus da vida mantém a existência de todas as coisas. E Deus criou as coisas de tal modo que elas, as criaturas, também  podem criar: temos, portanto, criaturas criadas pelas criaturas. As coisas criadas morrem ou somente se transformam? A morte ou a transformação das criaturas faz parte da dinâmica divina. 

Nos evangelhos acompanhamos o poder do mal e da morte sobre a frágil humanidade de Jesus. Mas também testemunhamos a boa nova: o poder do Deus da vida vencendo o mal e a morte. Em nossa vida cotidiana experimentamos na pele e na alma essa inevitável dinâmica de vida e morte. Aquele que não tem fé profunda tende a olhar a realidade circunstante enfatizando os males, a desgraça, a morte... Tende a tornar-se pessimista, amargo, sem esperança. Como será sua velhice? Como enfrentará a doença, o sofrimento, enfim, as dores da vida?
Aquele que, pela graça de Deus, recebeu o dom da fé, procura cuidar dela e alimentá-la com a leitura da Palavra, com a oração, com a participação nos sacramentos e com a prática das boas obras, esse fiel terá outro olhar sobre o mundo. Terá um olhar contemplativo, isto é, olhará a realidade com os olhos de Deus e não somente segundo a razão humana. O olhar com olhos de Deus faz o fiel enxergar a vida brotando em meio ao caos. Ele enxerga a flor que nasce do lodo. Enxerga a beleza na civilização desarmônica que o homem constrói. Enxerga as sementes do Espírito de Deus nas realidades humanas.
Sem dúvida, o homem de Deus enxerga claramente as mazelas do mundo, suas contradições, seus absurdos, seus males geradores de morte, que, na linguagem religiosa, chamamos de pecado. Mas constatamos na Bíblia e na história da humanidade, que o Espírito de Deus preenche todo o universo e lhe insufla continuamente o sopro da vida. O homem de fé, de alguma forma, percebe e sente na própria alma e na alma do mundo esse cálido sopro divino, gerador de vida.
O sopro de Deus mantém a vida do mundo. Em alguns casos o sopro vivificador do Pai celeste se faz mais visível como, por exemplo, na pessoa da dra. Zilda Arns. Como ela temos no mundo inteiro uma multidão de pessoas de todas as religiões que são presença visível do sopro de Deus.
Na Páscoa celebramos a força da passagem do Espírito de Deus que transforma a realidade. Na origem, como está escrito no Gênesis, Deus realiza a páscoa, ou passagem, do nada para a existência de todas as coisas. Do caos para o cosmos. Das trevas para a luz. E Deus viu que tudo era bom. Deus sopra sobre o Mar Vermelho e faz seu povo amado atravessá-lo a pé enxuto, fugindo da escravidão para a conquista da liberdade. Finalmente, na plenitude dos tempos, o Verbo de Deus realiza a passagem do céu para a terra, no Natal. No meio de nós, o Filho de Deus nos ensina como “passar” do mal para o bem, perdoando o pecador e amando o inimigo. Jesus nos ensina como passar do egoísmo para o amor, ao dar a vida por nós. E assim, a partir da Ressurreição de Cristo, a morte, entendida como um fracassado ponto final da existência humana, torna-se o triunfo do amor que gera vida. Antes de subir para o céu, Jesus soprou sobre os apóstolos o sopro de Deus e ordenar-lhes: “Ide pelo mundo inteiro”. E até hoje os amigos de Deus continuam irradiando o sopro do Espírito de Deus.